Histórias de Mãe: Uma Mãe de UTI

Hoje o "Histórias de Mãe" vai contar a história da Priscilla, mãe da Catarina. Priscila precisou tornar-se uma mulher ainda mais forte logo após o nascimento da sua tão sonhada princesa. Conheçam a história de uma mãe de uti...

Para quem ainda não conhece, a série "Histórias de Mãe" conta diferentes experiências de mães guerreiras que superaram dificuldades e passaram por momentos os quais nem imaginamos. São mães de verdade, com relatos reais.

Quando eu estava grávida, meus temores eram aqueles de toda mãe: será que conseguirei amamentar? Será que meu bebê terá que ficar mais um dia no hospital por conta de icterícia? Jamais imaginava que ia passar o que passei.


Minha gravidez foi ótima, não tive nem enjoo e meu parto foi exatamente como eu quis. Minha filha nasceu no sábado de carnaval. Poucas horas após o parto soubemos que ela nasceu com uma anomalia congênita raríssima: atresia do esôfago. Na prática, o esôfago dela não se desenvolveu e não tinha ligação com o estômago. Isso acontece em um bebê para cada 4 mil nascidos. Foi o segundo pior dia da minha vida. O pior mesmo viria depois, mas isso eu conto mais para a frente.

Soubemos, no dia do parto que ela teria que passar por uma cirurgia complexa para ligar o pedaço do esôfago que ela tinha com o estômago. A cirurgia seria feita quando ela tivesse 48 horas de vida. A essa altura a questão de amamentar e icterícia (que ela teve no final das contas) viraram pura bobagem.

Eu fui ver minha filha na UTI 7 horas após o parto e já ciente do diagnóstico. Eu só tinha a visto logo após o nascimento. Quando cheguei na incubadora ela abriu os olhinhos e me olhou com medo e tristeza. Nunca mais vou esquecer aquele olhar. Eu só chorava. Além disso, seguramos todas as visitas ao hospital porque sequer sabíamos ao certo o que ía acontecer. E nem estávamos no clima, não é?

Incrivelmente a recuperação do meu parto (cesárea) foi recorde. Acho que o meu corpo entendeu que eu teria que estar forte para encarar o que viria pela frente.

A UTI Neo tem sons e cheiros muito próprios. Até hoje lembro os barulhos dos equipamentos de lá e o cheiro de medicamentos e produtos para esterelização.

Vida de mãe de UTI não é fácil e fica pior quando você recebe a alta e seu bebê não. Mas de verdade: não levar meu bebê para casa foi o que menos me doeu. Passar pelo que ela passou me doeu mais que qualquer outra coisa na vida.

Outra coisa que me doeu muito foi só poder pegar minha nenê no colo depois de uma semana do seu nascimento. Toda mãe sonha em ter seu bebê nos braços após o parto. Infelizmente comigo não foi assim. Durante esse tempo eu só podia tocar na minha bebê com as mãos esterelizadas pelos buracos da incubadora.

Quando seu bebê não pode ser amamentado no quarto da maternidade, você tem que começar a frequentar o banco de leite do hospital e isso já daria um post próprio. Seus primeiros dias no banco de leite são os piores. Eu comparo com a chegada na prisão. Você fica seminua, sabe que as mães que estão ali também estão passando algum drama com seus bebês e seu leite não sai de jeito nenhum. Com o passar dos dias, você vira o “Sandrão” da prisão, o leite começa a sair, você nem se importa em estar pelada e começa a ter conversas animadas com as outras mães que estão lá.

Outra particularidade quando você tem um nenê na UTI é a sala de conforto dos pais – um espaço que o hospital fornece onde você pode tomar um café, descansar um pouco e guardar seus pertences (que não entram na UTI por conta de risco de contaminação). Lá você vai conversar com outras mães e pais e saber a história deles. Por incrível que pareça, o clima não é pesado. Em alguns momentos era até alegre. Teve um dia que eu fiz “tráfico de lacinhos” com outra mãe de menina. A gente faz de tudo para amenizar o clima de hospital. Desde o primeiro dia de internação levei coisas do enxoval da minha filha para a UTI (cueiros, fraldas, laços). Tudo para ela estar o mais perto da normalidade.

Eu ía para a UTI todos os dias ver minha filha. Os pais felizmente têm acesso direto à UTI, qualquer hora do dia. Quando minha bebê estava dormindo, eu ficava lá olhando para ela. Quando ela acordava eu cantava e conversava com ela. Tenho certeza que ela lutou pela vidinha dela porque sabia que tinha quems e importasse com ela fora do hospital.

Tinha momentos muito ruins: quando ela passava por algum procedimento envolvendo agulhas ou cortes, ou quando trocavam o curativo da cirurgia e ela berrava de dor. Era difícil se manter forte nessas horas.

Passada a primeira semana da cirurgia veio o pior: ela teve uma mega infecção e precisou voltar para o centro cirurgico. A cirurgia dela não seu certo e ela teve que fazer uma gastrostomia (sonda de alimentação direto no estômago) e esofagostomia (o coto do esôfago foi desviado para o pescoço, por onde sai a saliva, por exemplo).  Nesse dia morreu algo dentro de mim. Eu lembro de chorar abraçada com meu marido no sofá de casa. Eu estava apavorada de perder minah filha, risco que ela corria devido a infecção. Mas essa segunda cirurgia funcionou e ela se recuperou bem.

No dia seguinte desta cirurgia, contei meu drama aos prantos para uma mãe na sala de pais. E essa mãe me contou aos risos sobre o câncer que descobriu no terceiro mês de gestação. Aí aprendi duas coisas: a primeira é que na UTI não vale competir drama porque cada um tem o seu. A segunda é que eu ainda tinha muito o que aprender sobre como encarar os episódios que a vida nos apresenta.

Acho que as coisas não foram piores porque tive muito apoio do meu marido e a equipe do hospital nos acolheu bem. Ao todo foram 28 dias de internação da minha bebê. Toda vez que eu tinha oportunidade de fazer algo com ou para ela eu fazia: trocar a fraldinha, pegar no colo para ninar, essas coisas que são parte do cotidiano de todo recém nascido, mas que para mim eram quase um luxo.

Hoje minha filha está em casa e está ótima: ganhando peso, se desenvolvendo. Só tem a questão da sonda, mas que será resolvida quando antes esperarmos.  Ela fará uma cirurgia definitiva quando tiver um ano e aí terá vida normal e alimentação pela boca.

Até lá vivemos um dia de cada vez, mas com muito mais conforto por estarmos em casa e não mais no hospital. 

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